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Catedral FM: muito blá blá blá, pouca música, nenhuma cara



Fundada em 8 de dezembro de 1992, a  Rádio Catedral nasceu do esforço do então arcebispo do Rio, cardeal Dom Eugenio Sales, e do cônego Abílio Vasconcellos. Em uma concorrência, nos anos 80, eles tentaram obter para a Fundação Catedral a outorga de FM 93,3 do Rio de Janeiro, que acabou concedida aos sócios Edson Dominguez e Arolde de Oliveira. Mais tarde, em outra concorrência, a Fundação conquistou a outorga de FM 106,7 de São Gonçalo.

No início, a Catedral FM não tinha identidade. Mesclava programas católicos com programação musical popularesca, imitando a ainda não-evangélica FM 105,1. Foi em meados de 1995 que a Catedral FM assumiu a atual configuração: atualmente ela apresenta programas católicos, e outros de interesse público geral. A rádio é, hoje, um contraponto democrático à programação pasteurizada de quase todas as rádios evangélicas.

Vale lembrar que a Catedral foi a primeira rádio FM sediada na cidade do Rio de Janeiro a instalar transmissores no Morro do Mendanha, somando aos do Morro do Sumaré.

Esta é uma adaptação do texto da resenha que mantenho há anos no TRIBUTO. Agora, vamos aos detalhes contados ou não pela rádio.

Já escrevi em outros lugares e outras oportunidades que eu fui voluntário da minha paróquia junto à Catedral FM, nos anos de 1993 e 1994. Quando eu cheguei, o diretor geral era o cônego Abílio. Antes de eu deixar o voluntariado da rádio, cônego Abílio foi substituído pelo cônego Aroldo Ribeiro, que deixaria a emissora muitos anos depois. Cônego Abílio costumava dizer que, bem antes de haver a Fundação Catedral, teve um sonho com Nossa Senhora de Fátima, santa de devoção da maioria dos católicos portugueses, como ele. A santa teria dito ao padre que era a hora de o Rio de Janeiro ter uma rádio católica, já que a cidade tinha muitas rádios evangélicas.

Minhas tarefas eram divulgar a rádio na minha paróquia e levar para a rádio fichas de inscrição de novos Amigos da Rádio (ouvintes dispostos a fazerem uma doação mensal fixa para a rádio). Deixei o serviço porque estava atrapalhando minha vida profissional e porque percebi que não teria a menor condição de emplacar sugestões de mudanças (minha ou dos outros paroquianos) para a programação da emissora. Eu também discordava dos rumos que a direção da casa dava à emissora. A rádio estava tomada na época por uma grade de sucessos populares (até trilha do seriado Cavaleiros do Zodíaco os caras tocavam) e por programas AM em FM. Numa das últimas reuniões de representantes paroquiais em que eu estive, o então diretor geral Cônego Aroldo Ribeiro disse, com todas as letras, que a Catedral FM era uma "rádio AM no FM".

Também pesou na minha saída a histórica discriminação da rádio contra a juventude (a rádio teve e tem poucos programas destinados a esse público) e a insistência da Arquidiocese em manter uma rádio "estilo AM" numa FM, quando a própria Arquidiocese já poderia ter adquirido uma AM de verdade.

Minha última ligação pessoal com a rádio era o fantástico programa Nova Geração, o melhor programa católico destinado à juventude, em toda a história do dial carioca. Segundo o cônego Aroldo Ribeiro, o Nova Geração colocava frequentemente a Catedral no 3º lugar do Ibope, entre as FMs, no seu horário (sábados, 10 a 11h50). E era o programa com a maior audiência, entre todos da rádio. O programa teve sua última edição em 27 de dezembro de 2003.

A morte, no dia 29 de janeiro de 2004, do meu amigo e jornalista Alex Assis, produtor do Nova Geração, também foi a morte do único defensor de idéias realmente renovadoras e profissionais da Catedral FM.

O loteamento de alguns horários da rádio para políticos membros da Pastoral dos Políticos Católicos naquela mesma época (primeira metade dos anos 2000) fez-me afastar ainda mais da rádio, depois que eu já havia saído. Parece que o loteamento para políticos diminuiu, de lá para cá.

Já em 1993 e 1994, a rádio loteava a grade não-musical para toda sorte de pastorais e movimentos ligados à Arquidiocese do Rio de Janeiro. Em meados dos anos 90, os sucessos populares foram substituídos por músicas católicas. Mas o loteamento da grade para os movimentos e pastorais continua até hoje.

Tem outra questão: a rádio jamais teve uma grade linear, uma "cara", embora tenha uma identidade escancaradamente católica. Cada programa é produzido por equipes diferentes e cada um tem um nível de qualidade diferente. Há programas bem produzidos, mas a maioria é tecnicamente uma lástima. Um verdadeiro desperdício das doações feitas à rádio.

Uma rádio FM deveria ser uma plataforma para cultura, música, jornalismo discreto e, eventualmente, prestação de serviço nos intervalos. Sem fazer concorrência desleal com as AMs. A Catedral FM não se contenta nem mesmo com um hipotético papel de divulgadora da cultura e da música católica. Nada indica que essa situação mudará um dia.

Não satisfeitos com o blá blá blá esportivo já presente em diversas emissoras FM (só em FM ou repetidoras de AM) como CBN, Globo, Tupi, Transamérica e Oi FM, a Catedral FM também tem agora seu programa de debates e notícias esportivas. É o programa semanal Esporte Catedral, que estreou na última quarta-feira às 20:45. Eis o texto do portal oficial da rádio, que mostra até a logomarca oficial do programa:

ESPORTE E RELIGIÃO: UMA MISTURA CAMPEÃ

Preparem-se para uma grande surpresa! Dia 31/08 o ESPORTE CATEDRAL fará sua estreia na Rádio Catedral. Toda 4ª feira, a partir das 20h45, o programa deixará você por dentro de tudo o que acontece no mundo dos esportes (como se as demais rádios não fizessem isso...). Com os comentários de Sergio Ricardo, Leandro Sauerbronn e Pe. Lino (capelão do Vasco da Gama), as noites de 4ª feira nunca mais serão as mesmas.

Se o surfista Pe. Zeca não tivesse deixado o ministério sacerdotal, provavelmente teria sido convidado para a equipe do programa.

Com mais esse programa de blá blá blá esportivo, o dial FM carioca afunda cada vez mais.

Por enquanto, é esse o texto que tinha para escrever, ainda sob o impacto da notícia da criação do programa Esporte Catedral. Até que eu publique o próximo texto, os leitores podem continuar fazendo o de sempre: comentar aqui, ou mandar os comentários diretamente para o TRIBUTO.

Tenham uma excelente semana.

Marcelo Delfino

Tributo ao Rádio do Rio de Janeiro
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Região Metropolitana 7711910452548656297

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  1. Essa eu não sabia. Rádios também transmitem do Mendanha? A frequência é a mesma do Sumaré?

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  2. As frequências são as mesmas. Transmitem simultaneamente do Sumaré e do Mendanha: a Catedral em 106,7, a 93 FM em 93,3, a JB FM em 99,7, a FM O Dia em 100,5 e a Tupi em 96,5.

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  3. A Costa Verde FM 91,7 de Itaguaí também transmite do Mendanha, mas não do Sumaré. E agora mesmo que não transmitirá do Sumaré, com o advento da Kiss FM 91,9.

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  4. Aqui em Sulacap, não percebi nenhuma melhora da JB FM com essa retransmissão dela no Mendanha. Será que a Globo também não tem retransmissora no Mendanha? Por aqui, o sinal do Mendanha é razoável e o do Sumaré também e pega-se rádios e canais de TV de Petrópolis.

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  5. Não vou entrar no mérito das críticas, mas já que foram feitas, seria de bom tom expor o que se esperaria de uma rádio católica, especialmente com sugestões acerca da programação. E não me parece nada demais uma emissora da Arquidiocese do Rio ter uma programação formada por pastorais e movimentos ligados à Arquidiocese do Rio...

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  6. queria a Jovem Pan aqui '-' seria um alivio quando a mix começa a toca Cine.. Restart, Seu Jorge Êeee

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  7. O mínimo que se poderia esperar da Catedral FM seria um rigor na produção dos programas. A rádio só tem identidade católica, mas não tem uma programação linear, identificável em qualquer horário. Quando se compara alguns programas com outros, nem parece que estamos ouvindo a mesma rádio. Fica parecendo aquelas locadoras de horários, como a Band AM 1360 e a Metropolitana AM 1090.

    Eu já sugeri que a rádio fizesse uma abordagem dos aspectos culturais, musicais e artísticos das músicas e intérpretes de música popular católica que executam, não se atendo apenas a aspectos teológicos. Mas nunca me ouviram.

    Também sugeri implantar alguma coisa que continuasse o trabalho com a juventude feito pelo programa Nova Geração. Também não me atenderam. Quem sabe o JMJ 2013 seja um pretexto para mudanças positivas na rádio. Tomara!

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  8. No inicio da radio catedral as musicas populares eram todas cortadas ou sejas sem surada em partes das musicas.

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  9. Sou católico e não consigo ouvir a Rádio Catedral FM. Tenho a mesma opinião que você, meu caro Marcelo Delfino.
    Houve um tempo em que eles organizaram uma webradio só musical. Era a Catedral Musical Online e para acessá-la era preciso acessar o site.
    O site mudou (melhorou muito por sinal!) mas a webradio alternativa foi pro espaço. Soube que o cara que a criou nem tá mais trabalhando lá.

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  10. É isso mesmo. Quem programava a Catedral Music Online não trabalha mais lá. Não ficou ninguém para programar as músicas.

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  11. parabens pela otima programação da Radio catedarl FM 106,7,,,ouço quase 24 hs

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